Orí que escorre e circula vida
Faz calor aqui no sertão, me cubro com meu pano da costa firme… Corpo Duro, duro! Consistente que só é tecido que me toca e me lembra da minha força fecho os olhos e estou na gira. Duro enquadre, quase inquebrável assim como nossa corpa preta. quadrado… memória… vida vivida de um tempo onde o que fixou o passado arremessa o futuro costurado por um presente. Ainda espero por aquele olhar. Duro, frio, metal. Resistente atravesso a encruzilhada, na linha de trem que me cerca minha trilha, trilha trilhos de afetos, encontros, abraços quentinhos com gosto de amor. Sinto-me Deusa da Justiça, proteção, ordem, inspiração, guardiã do místico que é portal entre mundos, oráculos que nos fazem escorrer caminhos. Tecido macio da ancestralidade, que trança toques sensíveis e acolhedores que perfuram pedras. Não se engane, dançamos entre o liso e o áspero, gingamos pelo carinho que senti no futuro, e o afeto no toque de um instante de um passado profético. […]
Continuação
[…]
Suporte minha hibridez, em suas dimensões lisas, mas aprenda com minha aspereza porque ela é elo criador de fricções quentinhas e na temperatura ambiente. Sua corpa dura, inflexível, se encontra com minhas curvas relevos e onduras. Será que você não entendeu nada?! Tenho planos para nós porque em minha corpa cabe o côncavo e o convexo que se esfregam, se lambuzam, me fazem sentir, te fazem sentir curar.
Ao invés de tentar se sobrepor a mim aceite o prazer do encontro entre o seu metal duro, liso, frio e inflexível… Será que existe em ti e em mim? Com meus dedos maleáveis e circulares vou em movimentos lambusados. Suas manchas espalham gemidos temidos de corpas que sentem prazer. Entendeu agora? Nossos pontos côncavos e convexos em fricção amassada fazem algo novo nascer… Criação.
Nuas desenhadas pelo sol friccionamos, friccionamos a nós, haverá no retrato, re trato denovo e denovo haverá trato acordo! A madeira, antes inflexível nos faz circulares. Como o sol, assim a gira. Ardores na pele que queima e esquenta a corcunda de igbin que Opaxorô ginga pra lá e pra cá. Quem é você? Escultura curvilínea, firme. Paternidade, teimosia, sonhos… Ah minha gestação que contrai o mundo me desmantela.
Nasceu… orgânico, espinhoso, resistente. Orí nasceu acumula água, resiste à seca. É poesia sertaneja pelas trilhas da estrada feita de mangas amarelinhas. Nasce forjada em solo catingueiro. Escrita firme que pode ser apagada e reformulada re tratada. Reescrita. Orí nasce da própria vida em fricção. Escreve na linha com uma letra bonita. Saudades do meu pai Oxalá Oxalá que com a sola do pé experimenta a terra e se esparrama como criador de vidas dançando escorregadio nos trilhos que são trilhas da estrada de manga.
Orí é vida que já nasce sabendo andar pelas escorregadias estradas manga. falando e inadiavelmente sentindo. Suas formas redondas e vermelha no tempo das urgências fazem brotar como gotas dágua que dançam na terra os pequenos gestos em umbigos de escrita. A forma/força que escolhemos faz amizade com a temporalidade espiralada. Será um novo amor temperado com tomates colhidos do pé? Nossos tempos nem sempre cabem no tomate-despertador.
Vou me abrindo mais rápido, fecho, não quero me espalhar muito não, as vezes espalhar é perigoso. Mas para ser sincera, acho que não tenho escolha me abro e ventando me espalho. Talvez a saída seja conspirar tomando café entre mãe e eu, entre feijões e epistemes de começos… Saímos em fuga cuidadosas pois a captura está a espreita. Quando doía o feijão me curava sou Orí de saia rodada, roda de terreiro, saudação aos ancestrais e aos mais velhos.
Cravo-da-índia e do meu avô, homem negro, lavrador, cazumbar, que leva aonde está alegria para pessoas. Meu cuscuz com ovo tem cheiro inconfundível da manteiga que se derrete e penetra no milho. Nos atrevemos a contar nossas histórias, gargalhadas e choros, vividas e contadas. Do pó de café, o cheiro vai sendo feito de mim, recém passado. NUNCA ESQUECI, aquela pele, ela ria dizendo enquando me diz pega nas pelanquinhas. — um dia vc vai tomar café com pelancas, ensina Nanã a sua neta. Orí Isso tem cheiro de estrada, muitos caminhos, eu sou feliz com muitos cheiros da terra que encontra a chuva, do caju que é fruta e castanha, da dama da noite que me pariu ao sol com alho refogado, todo banquete passa por esse cheiro. Somos caroço de dendê, líquido ouro. Inebriante perfume. Cheiro de dendê sobe. Corpo treme e acalma. Caruru… bobó…xinxim… acarajé… Açaí, com farinha e camarão ou peixe frito, o salgado e o sabor fruta, me traz boas lembranças de casa, de como é gostoso estar reunido com todos. Orí é Pa-la-dar. Até a palavra é gostosa. Gosto de comer e beber, sempre fui bom garfo. Gosto do dendê do acarajé, pra além do paladar, me fortalece de outras formas. Gosto do gosto dos lábios da minha amada. Gosto das palavras de afeto, sou um doguinho caramelo na vida. Gosto do suco de melancia gelado, do ardor fresco do gengibre. A frieza e o desprezo me tiram o paladar, me deixam dormente, ausente. Gosto de especiarias na comida. Gosto da doçura no paladar e na vida. Saboreio teu beijo apaixonado do tempo do nosso amor ainda com sabor. Esse estalado das fibras doces instala em minha boca o gosto da sua fruta preferida, é minha maior lembrança dos caminhos e universo contidos nosso sabor de viver. A melancia é uma materialidade da sua doce presença, de que a morte não te desfez, a melancia é a água mais doce da sua saudade e lembrança de que vc está em tudo, o meu desespero de não te esquecer é acalmado nas águas doces da melancia, de uma das mais doces lembranças que ainda tá aqui! Orí é orikí.
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O Programa Interdisciplinar de Pós-Graduação em Linguística Aplicada da UFRJ se orienta por uma tripla missão. Em primeiro lugar, busca formar pesquisadores/as que fortaleçam o campo da Linguística Aplicada e seu vínculo com os fenômenos sociais. O Programa também se propõe a qualificar docentes para o Ensino Superior em diferentes áreas que lindem com a questão da linguagem. Finalmente, o PIPGLA visa propiciar formação teórico-prática qualificada de profissionais que têm no uso da linguagem sua principal ferramenta de trabalho.
O Mestrado em Relações Étnico-Raciais (PPRER) do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (CEFET/RJ) foi criado em 2011, com objetivo de atender à busca de aprofundamento teórico sobre a temática étnico-racial.
O CEFET/RJ, ao criar o Mestrado em Relações Étnico-Raciais, demarcou uma ação pioneira, tanto pela temática, quanto pela forte integração entre os níveis médio/técnico (Educação Básica), Graduação e Pós-Graduação.
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Resumo
Sou Nordestina. Filha de Maria das Graças Lima e neta de Maria de Lourdes Cruz. Mesmo abreviando para Fátima Lima, sou da saga das marias – Maria de Fátima Lima Santos. Antropóloga. Feminista Negra e contra Colonial. A dona do meu ori é Oyá. Sei o que é deitar no colo do orixá. Lida como parda, politicamente negra. Lésbica. Doutora em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro/IMS/UERJ. Pós Doutora em Antropologia Social pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social/PPGAS do Museu Nacional/UFRJ. Professora Associada do Centro Multidisciplinar UFRJ/Macaé. Professora do Programa Interdisciplinar de Pós-graduação em Linguística Aplicada- PIPGLA da Universidade Federal do Rio de Janeiro/UFRJ. Professora do Programa de Pós-Graduação em Relações Étnico – Raciais/ CEFET/RJ. Sou autora do livro “Corpos, Gêneros, Sexualidades – políticas de Subjetivação” publicado pela Editora Rede Unida. Atuo no campo das Ciências Humanas e Sociais e nos estudos de linguagens, discursos e narrativas, principalmente com os seguintes temas: Raça, gênero, sexualidade, teorias Feministas (com ênfase nos feminismos negros e decoloniais), processos políticos de subjetivação e estudos e pesquisas com os grupos ditos subalternizados. Faço parte da Associação Nacional de Pesquisadoras/es Negras/os – ABPN e do Coletivo de Docentes Negros da UFRJ. Sou colaboradora da organização da sociedade civil Casa das Pretas.
Resumo
Sou enfermeira por profissão e convicção, preta, filha de Alberto Pinto e Liliam Izidoro, mãe de Heloisa. Sou filha de Oxóssi com Oyá. Não falta rumo e coragem. Formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Mestre em Educação para as Ciências da Saúde e Doutora em Enfermagem. Orientadora da Liga Acadêmica de Enfermagem em Saúde da População Negra e Coordeno a Disciplina Tópicos nas Relações Étnico Raciais no Contexto da Saúde. Membro do MNU – Movimento Negro Unificado e da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros – ABPN. Atuo na Câmara de Políticas Raciais, na Comissão de Heteroidentificação e faço parte do Coletivo de Docentes Negros da UFRJ. Ori e força e grandeza. Nada se faz sem um bom Ori.